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Quinta-feira, dia 05/09, os professores saíram de Mossoró/RN para a Serra do Mel/RN, para mais uma aula dos Saberes da Terra. Desta vez, quatro (Raimundo Antonio, Teresa Cristina, Antonia Farias e Elizângela Sales) dos cinco professores (Luzia Isabella em estado de gestação não estava se sentido bem e o médico recomendou-lhe repouso absoluto, conforme atestado), estavam a bordo do carro fretado que, comumente, leva-os, toda semana, ao município vizinho, distante pouco mais de 40 quilômetros da sede da 12ª DIRED (local de partida).
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Na Escola Estadual Padre José de Anchieta, na vila Rio Grande do Norte, os alunos dos Saberes da Terra (vindos das vilas Ceará, Paraíba, Garavela e Brasília) tomaram seus assentos e receberam aulas de Língua Portuguesa e noções básicas de Matemática, através de um texto voltado para a realidade de cada um deles, que falava sobre a desigualdade social e o dilema das famílias que sobrevivem com uma quantia inferior a R$ 100,00 (cem reais).
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Foram trabalhados os verbos, advérbios, ditados e, dentro da temática (sobreviver com apenas uma quantia irrisória) foi feita uma discussão de como transformar a quantia em alimentos e que esses dessem para o mês inteiro. Incluso no exercício de multiplicar o valor, os alunos passaram a escrever nomes e quantidades de alimentos, preços (inteiros e fracionados), porcentagens, multiplicação, divisão e soma.
TEMPO COMUNIDADE
O dia de sexta-feira, dia 06/09, diferentemente do mesmo dia da semana passada (quando os professores se dirigiram para a vila Ceará), amanheceu sob um Sol causticante, abrasador. Os professores, motivados pela ótima experiência vivida na aula de campo, preparam-se para ir, desta vez, para a vila Paraíba. No local onde se contrata transportes alternativos para o município da Serra do Mel, o primeiro obstáculo: nenhum deles queria fretar o seu veículo para ir até a citada vila, alegando que não compensava o valor acrescido ao frete que é costumeiramente cobrado até a vila Rio Grande do Norte (distante – e mais perto de Mossoró – da vila Paraíba cerca de 12 quilômetros).
Mas, em todo lugar existe aquele que se compadece e é mais sensível, e foi esse que perguntou se todos eram professores e se iam dar aulas na referida vila. Confirmado, ele se propôs a fazer a “corrida” (mediante um preço intermediário entre o que é cobrado e aquele que se julga o ideal) e, assim, os professores embarcaram em mais uma atividade voltada para tentar transformar realidades e, com isso, minimizar o impacto social na vida de cada um dos colonos do programa Saberes da Terra.
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Vista da primeira rua da vila Paraíba |
Enquanto o carro percorria o trecho entre a vila Rio Grande do Norte e a vila Paraíba, o espetáculo da natureza se fez mais uma vez presente – para quem, costumeiramente, estava habituado às “benesses” que a cidade grande, cercada de concreto e formas desiguais, proporcionava a todos, trazendo uma cruel ilusão de que o mundo era daquele jeito e que a vida girava em torno da pressa, da agitação, do barulho e do estresse dos seus moradores – mostrando uma paisagem rodeada de verde, onde os pássaros e os animais soltos na natureza ainda são maioria e transitam, de um lado para o outro da estrada, como querendo dizer que ali ainda se vive em harmonia com o tempo de Deus.
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Vista da primeira rua da vila Paraíba: casas de Josefa, Fagna, Maria Diógenes e Elenilma |
Na vila Paraíba, primeira rua (são quatro no total), vizinho a uma pequena oficina mecânica, a casa de uma aluna dos Saberes da Terra: Josefa. Os professores foram bem recebidos – por ela e o seu esposo. Casa simples, mas acolhedora, estava feito servidora para os seus visitantes. Na área, as cadeiras convidaram para uma boa prosa inicial. O Sol lá no alto já não estava tão abrasador naquele lugar. Pelo contrário, a brisa que soprava vinda do nascente trazia até pequenas lufadas de um friozinho gostoso de sentir e, com isso, tornar a conversa mais rendosa para as visitas e os nativos.
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Vista da primeira rua da vila Paraíba |
E assim foi. Com a chegada de um dos moradores mais antigos do lugar, a conversa girou nos fatos históricos dos primeiros anos do município da Serra do Mel e da vila Paraíba. Os professores receberam uma aula de história contada pelo “seu Chico” – sanfoneiro das antigas, dono do time de futebol do local – que fez uma linha de tempo e prendeu a atenção de todos, principalmente, quando enveredou pelas dificuldades e pelos episódios curiosos dos primeiros colonos.
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Casa da aluna Josefa |
Como de praxe, o cafezinho foi servido. Gente do interior, do sertão, ainda conserva a tradição de servir as visitas com a sua generosidade. Na mesa farta, os visitantes provaram do café coado no pano e do bolo feito sem a receita do instantâneo.
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A professora Elizângela com a aluna Josefa |
Mas, ainda era preciso visitar outros alunos e presenciar, principalmente, as atividades geradoras de renda de cada um (objetivo maior elencado no projeto elaborado pelos professores e principal norteador da ida às comunidades), fato que foi presenciado duas casas mais à frente. Era a casa de Maria Diógenes, conhecida na vila, afetuosamente, por “Miminha”.
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Na foto, os alunos Anchieta (em pé, à esquerda), "Miminha" (sentada, à direita) e Fagna Carla (em pé, à direita). Completa a foto, o companheiro de trabalho de 'Miminha' e o filho do aluno Anchieta |
Assim como na casa de Josefa, o ambiente acolhedor mostrava a receptividade dos seus moradores. Na mesa de trabalho – instalada no alpendre – “Miminha” trabalhava tirando as películas das castanhas. Trabalho artesanal, meticuloso, feito com habilidade, precisão e numa velocidade incrível (ver vídeo no final). Ajudando-a, mais uma aluna dos Saberes da Terra: Fagna Carla.
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Os professores Teresa Cristina e Raimundo Antonio experimentando fazer o trabalho de seus alunos |
Depois que os professores puderam ver, ouvir e anotar como era feito o processo da retirada das películas, já na companhia do aluno Anchieta, os professores foram visitar mais uma casa: a da aluna Elenilma (a alegria de apresentar a sua família, a casa de seus genitores, o local onde vive com o seu filho; enfim, antes das dificuldades o prazer de servir) que, por motivos de saúde não pode ter, como fonte de renda, o trabalho artesanal da cultura da castanha.
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Da esquerda para a direita: o aluno Anchieta, a professora Teresa, a aluna Elenilma e a professora Elizângela. O garoto da foto é o filho do aluno Anchieta |
Descendo um pouco mais, os professores – levados pelo aluno Anchieta – foram visitar a casa deste. Embora não viva da cultura da castanha, o aluno Anchieta trabalha fazendo pequenos reparos (elétricos, hidráulicos, mecânicos), fabricando carroças, fabricando as pequenas ferramentas utilizadas na cultura da castanha, ou seja, o aluno é, ao mesmo tempo, um professor Pardal e um “marido de aluguel” para os moradores da vila. Mais uma vez os professores não escaparam da boa hospitalidade do seu morador: mesa farta com direito a fubá de castanha com rapadura raspada, bolo feito pela esposa do mesmo e um café gostoso de tomar!
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Casa do aluno Anchieta |
O Sol, nesta hora, já estava querendo ir embora. Depois de mais dois dedos de prosa – na área da casa do aluno Anchieta – ainda havia mais três visitas a serem feitas. Prestativo, o aluno Anchieta acompanhou os professores. A próxima aluna era a Dulcicleide.Infelizmente, por motivos superiores, a mesma tinha se deslocado para a vila Rio Grande do Norte.
Desta forma, a próxima parada foi na casa do casal de alunos Luciano / “Branca”. Ele trabalha como pedreiro. Inclusive, havia acabado de chegar da cidade Tibau – distante dali cerca de 80 quilômetros. Tinha ido fazer uma cisterna. O transporte? Uma moto de 100cc. Debaixo de um frondoso pé de caju, os professores aprenderam um pouco mais sobre o lugar, a sua diversidade, as técnicas quase primitivas de como conseguir o alimento (fojos) que a natureza proporciona sem ser necessário o gasto com os industrializados tão comuns aos nossos dias.
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"Terreiro" da casa dos alunos Luciano e "Branca" |
Por fim, o último casal de alunos: Erismar/Welya. Último casal, última casa da rua. Já na saída de vir embora para a cidade grande. Mais aprendizagens para os professores. A aluna Welya, grávida de 9 meses, espera, para qualquer hora, o seu primeiro bebê (talvez quando essa matéria for postada, a sua filhinha já tenha nascido). A casa respira a chegada desse bebezinho. O quarto arrumado, as pecinhas de roupas todas em seus devidos lugares, o berçinho e a mala com o kit maternidade – à espera da hora – são motivos de orgulho para o mais novo anjo chamado mãe. Na mesa, primeiro, o cafezinho com tapioca do início da noite. Depois, quase em seguida, um jantar para os professores.
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Da esquerda para a direita: Professoras Elizângela e Teresa e os alunos Erismar/Welya |
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Da esquerda para a direita: professores Elizângela e Raimundo Antonio e os alunos Erismar/Welya |
A lição que se tira dessa visita é que o campo oferece o necessário para que os seus moradores vivam em paz e harmonia com o meio-ambiente. E é através do desenvolvimento sustentável e da qualificação de seus habitantes, que a sociedade urbana pode aprender que devagar se vai ao longe e que preservar o meio em que se vive é matéria básica para se evitar a destruição da natureza e retardar, ao máximo, a violência gerada pelo progresso descontrolado dos gananciosos.
Os professores foram ensinar aos seus alunos e voltaram ensinados e seguros de que é preciso ter consciência de que a mãe natureza ainda continua sendo o equilíbrio para um mundo melhor.
Abaixo, o vídeo sobre o "Tempo Comunidade" - vila Paraíba:
Abaixo, o vídeo sobre o "Tempo Comunidade" - vila Paraíba:
NOTA DA 12ª DIRED:
Os professores pretendiam, como na semana que passou – quando voltaram à noite para dar aula na vila Rio Grande do Norte –, retornar no ônibus que leva os alunos das vilas Paraíba e Ceará, para a Escola Estadual Padre José de Anchieta, porém, por motivos de força maior (quebra de ônibus – segundo foi informado, depois, para os professores) os mesmos voltaram para a referida vila tendo que “fretar” um veículo.
Com isso, os alunos dos Saberes da Terra e os alunos da EJA, de mais de 8 vilas, ficaram sem aula na noite de sexta-feira, dia 06.09.
Os professores e os alunos dos Saberes da Terra perderam uma grande oportunidade de aprofundar o tema “comunidade”, haja vista, a proximidade do que foi observado, perguntado, discutido e orientado, durante a visita da tarde.
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